El Papa de la libertrad de espíritu y de la razón cordial. Leonardo Boff

Português do Brasil: O presidente Lula partici...

Português do Brasil: O presidente Lula participa da convenção nacional do PT, que confirmou a candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff à Presidência da República e Michel Temer (PMDB) como vice na chapa. (Photo credit: Wikipedia)

Papa with Mr/Mrs Wheatly and Otis

Papa with Mr/Mrs Wheatly and Otis (Photo credit: Robert of Fairfax)

En español más abajo. 

O Papa da liberdade de espírito e da razão cordial

2013-07-26

Uma das maiores conquistas da pessoa humana em seu processo de individuação é a liberdade de espírito. Liberdade de espírito é a capacidade de ser ser duplamente livre: livre das injunções, regras, normas e protocolos que foram inventados pela sociedade e pelas instituições para uniformalizar comportamentos e moldar personalidades segundo tais determinaçãos. E significa fundamentalmente ser livre para ser autêntico, pensar com sua própria cabeça e agir consoante sua norma interior, amadurecida ao largo de toda vida, na resistência e na tensão com aqueles injunções.

E essa é uma luta titânica . Pois todos nascemos dentro de certas determinações que independem de nossa vontade seja na família, na escola, na roda de amigos, na religião e na cultura que moldam nossos hábitos. Todas estas instâncias funcionam como super-egos que podem ser limitadores e em alguns casos até castradores. Logicamente, estes limites desempenham uma função reguladora importante. Pelo fato de o rio possuir margens e limites é que ele chega ao mar. Mas estes podem também represar as águas que deveriam fluir. Então se esparram pelos lados e se transformam em charcos.
As atitudes e comportamentos surpreendentes do atual bispo de Roma, como gosta de se apresentar, comumente chamado de Papa, Francisco, nos evocam esta categoria tão determinante da liberdade de espírito. Normalmente o cardeal nomeado Papa logo incorpora o estilo clássico, sacral e hierático dos Papas, seja nas vestimentas, nos gestos, nos símbolos do supremo poder sagrado e na linguagem. Francisco, dotado de imensa liberdade de espírito, fez o contrario: adaptou a figura do Papa a seu estilo pessoal, aos seus hábitos e às suas convicções. Todos conhecem as rupturas que introduziu sem a maior cerimônia. Aliviou-se de todos os símbolos de poder, especialmente, a cruz de ouro e pedras preciosas e o mantelo (mozetta) colocado aos outros, cheio de brocados e preciosidades, outrora símbolo dos imperadores romanos pagãos: sorrindo disse ao secretário que queria colocá-lo a seus ombros: “guarde-o porque o carnaval já acabou”. Veste-se na maior sobriedade, de branco, com seus sapatos pretos habituais e, por baixo, com sua calça também preta. Dispensou todas as facilidades atribuídas ao supremo Pastor da Igreja, desde o palácio pontifício substituído por uma hospedaria eclesiástica, comendo junto com outros. Pensa antes no pobre Pedro que era um rude pescador ou em Jesus que, segundo o poeta Fernando Pessoa, “não entendia nada de contabilidade nem consta que tinha biblioteca”, pois era um “fac-totum” e simples camponês mediterrâneo. Sente-se sucessor do primeiro e representante do segundo. Não quer que o chamem de Sua Santidade, pois se sente “irmão entre irmãos”, nem quer presidir a Igreja no rigor do direito canônico, mas na caridade calorosa.
Em sua viagem ao Brasil mostrou sem nenhuma espetacularização, esta sua liberdade de espírito: deseja como transporte um carro popular, um jeep coberto para locomoção no meio do povo, para abraçar crianças, para tomar um pouco de chimarrão, até trocar seu “solideo papal branco” da cabeça, por um outro, meio desengonçado oferecido por um fiel. Na cerimônia oficial de acolhida por parte do Governo que obedece a um rigoroso protocolo, após o discurso, vai à Presidenta Dilma Rousseff e a beija para estarrecimento do mestre de cerimônia. E muitos seriam os exemplos.
Esta liberdade de espírito lhe traz uma inegável irradiação feita de ternura e vigor, as caraterísticas pessoais de São Francisco de Assis. Trata-se de um homem de grande inteireza. Tais atitudes serenas e fortes mostram um homem de grande enternecimento e que realizou uma significativa síntese pessoal entre o seu eu profundo e o seu eu consciente. É o que esperamos de um líder, especialmente religioso. Ele evoca ao mesmo tempo leveza e segurança.
Esta liberdade de espírito é potenciada pelo resgate esplêndido que faz da razão cordial. A maioria dos cristãos estão cansados de doutrinas e são céticos face a campanhas contra reais ou imaginados inimigos da fé. Estamos todos impregnados até a medula pela razão intelectual, funcional, analítica e eficientista. Agora vem alguém que a todo momento fala do coração como o fez em sua fala na comunidade (favela) de Varginha ou na ilha de Lampedusa. É no coração que mora o sentimento profundo pelo outro e por Deus. Sem o coração as doutrinas são frias e não suscitam nenhuma paixão. Face aos sobreviventes vindos de África, confessa: “somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de ‘padecer com’: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar”. Sentencia com sabedoria: “A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como trata os mais necessitados”.  Por esta medida, a sociedade mundial é um pigmeu, anêmica e cruel.

A razão cordial é mais efetiva na apresentação do sonho de Jesus que qualquer doutrina erudita e tornará o seu principal arauto, o Francisco de Roma, uma figura fascinante que vai ao fundo do coração dos cristãos e de outras pessoas.

El Papa de la libertad de espíritu y de la razón cordial

2013-07-26

Una de las mayores conquistas de la persona humana en su proceso de individuación es la libertad de espíritu. Libertad de espíritu es la capacidad de ser doblemente libre: libre de las imposiciones, reglas, normas y protocolos que fueron inventados por la sociedad y por las instituciones para uniformar comportamientos y moldear personalidades según tales determinaciones. Y significa fundamentalmente ser libre para ser auténtico, pensar con la propia cabeza y actuar conforme a su norma interior, madurada a lo largo de toda la vida, en resistencia y en tensión con aquellas imposiciones.Y ésa es una lucha titánica. Pues todos nacemos dentro de ciertas determinaciones que no dependen de nuestra voluntad, ya sea en la familia, en la escuela, en el grupo de amigos, en la religión y en la cultura que moldea nuestros hábitos. Todas estas instancias funcionan como super-egos, que pueden ser limitadores, y en algunos casos incluso castradores. Lógicamente, estos límites desempeñan una función reguladora importante. Gracias a sus orillas y sus límites el río puede ser conducido hasta el mar. Pero esos límites pueden también represar las aguas que deberían fluir. Entonces se desbordan por los lados y se transforman en charcos.

Las actitudes y comportamientos sorprendentes del actual “obispo de Roma”, como gusta de presentarse, comúnmente llamado Papa, Francisco, nos evocan esta categoría tan determinante de la libertad de espíritu.

Normalmente el cardenal nombrado Papa asume enseguida el estilo clásico, sacral y hierático de los Papas, tanto en la vestimenta, como en los gestos, los símbolos del supremo poder sagrado, y en la forma de hablar. Francisco, dotado de una inmensa libertad de espíritu, ha hecho lo contrario: ha adaptado la figura del Papa a su estilo personal, a sus hábitos y a sus convicciones. Todos conocemos las rupturas que ha introducido sin mayor ceremonia. Se ha despojado de todos los símbolos de poder, especialmente, la cruz de oro y piedras preciosas y la mozetta, llena de brocados e preciosidades, en otro tiempo símbolo de los emperadores romanos paganos; sonriendo, dijo al secretario que iba a colocárselo sobre los hombros: “guárdela, porque el carnaval se ha acabado”. Se viste con la mayor sobriedad, de blanco, con sus zapatos negros habituales y, por debajo, con sus pantalones también negros. Ha dejado de lado todas las comodidades atribuidas al supremo Pastor de la Iglesia, incluso el palacio pontificio, sustituyéndolo por una hospedería eclesiástica, comiendo junto con los demás comensales. Piensa más bien en el pobre Pedro, que era un rudo pescador, o en Jesús que, según el poeta Fernando Pessoa, “no entendía nada de contabilidad ni consta que tuviera biblioteca”, pues era un “fac-totum”, un sencillo campesino mediterráneo. Se siente sucesor del primero y representante del segundo. No quiere que lo llamen “Su Santidad”, pues se siente “hermano entre hermanos”, ni quiere presidir la Iglesia con el rigor del derecho canónico, sino en la caridad cariñosa.

En su viaje a Brasil ha mostrado sin ninguna espectacularización esta su libertad de espíritu: desea como transporte un carro popular, un jeep cubierto para moverse en medio del pueblo, para abrazar a los niños, para tomar un poco de cimarrón, incluso intercambiar su “solideo papal blanco” de la cabeza por otro medio descompuesto ofrecido por un fiel. En la ceremonia oficial de acogida por parte del Gobierno, que obedece a un riguroso protocolo, después del discurso, se acerca hasta la Presidenta Dilma Rousseff y le da un beso, para horror del maestro de ceremonias. Y muchos otros ejemplos.

Esta libertad de espíritu le da una innegable irradiación, mezcla de ternura y vigor, las características personales de San Francisco de Asís. Se trata de un hombre de gran entereza. Tales actitudes serenas y fuertes muestran un hombre de gran compasión, que realizó una significativa síntesis personal entre su yo profundo y su yo consciente. Evoca al mismo tiempo levedad y seguridad. Es lo que esperamos de un líder, especialmente religioso.

Esta libertad de espíritu es potenciada por el rescate espléndido que hace de la razón cordial. La mayoría de los cristianos están cansados de doctrinas y son escépticos frente a campañas contra reales o imaginarios enemigos de la fe. Estamos todos impregnados hasta la médula por la razón intelectual, funcional, analítica y eficientista. Ahora viene alguien que en todo momento habla desde el corazón como lo hizo en sus palabras en la comunidad (favela) de Varginha, o en la isla de Lampedusa. Es en el corazón donde mora el sentimiento profundo hacia el otro y hacia Dios. Sin el corazón las doctrinas son frías y no suscitan ninguna pasión. Frente a los sobrevivientes venidos de África, confiesa: ”somos una sociedad que ha olvidado la experiencia de llorar, de ‘padecer con’: la globalización de la indiferencia nos ha robado la capacidad de llorar”. Sentencia con sabiduría: “La medida de la grandeza de una sociedad viene dada por el modo como trata a los más necesitados”. Según esta medida, la sociedad mundial es un pigmeo, anémica y cruel.

La razón cordial es más efectiva para la presentación del sueño de Jesús que cualquier doctrina erudita, y hará de su principal heraldo, Francisco de Roma, una figura fascinante que llega al fondo del corazón de los cristianos y de otras personas.

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